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Lightroom: Modificações Localizadas

21/10/2008

Quem utilizou a versão anterior do Lightroom deve ter convivido com o fato de ser quase obrigatório, para um serviço completo de tratamento de imagem, utilizar o Photoshop como parte do processo. Isto era verdade principalmente quando se tratava de retratos femininos… aqueles que exigem retoques para tirar manchas, suavizar a pele e etc.

Isto se devia ao fato de todas as alterações feitas no Lightroom serem globais, ou seja, serem aplicadas na foto como um todo. As vezes era simples fazer uma modificação localizada, como saturar o vermelho para destacar o batom de uma modelo, mas isto seria um problema caso ela estivesse com um vestido vermelho, ou existissem objetos vermelhos no cenário, pois tudo seria saturado junto.

Com o Lightroom 2 a Adobe resolveu acabar com este problema e tornar o Lightroom uma ferramenta bastante independente. Claro que você ainda precisa do Photoshop para converter uma imagem para CMYK, fazer montagem e aplicar filtros exóticos, mas isto é alçada do designer gráfico ou do arte finalista, pois todo o tratamento fotográfico que é de responsabilidade do fotógrafo está disponível no Lightroom 2, de forma que estes profissionais podem viver apenas com este programa (que além de tratarem suas fotos ainda auxiliam na organização, busca, gerenciamento e etc.).

A solução para o problema que mencionamos veio na forma das modificações localizadas, tornadas possível pela ferramenta Adjustment Brush (Pincel de Ajustes). Localizada logo abaixo do histograma, no módulo Develop. Aquela que parece um palito de fósforo.

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Clicar neste ícone marcado em vermelho faz com que se abra, abaixo dele, toda a seção de ferramentas do Adjustment Brush.

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É nesta seção que você irá colocar o Adjustment Brush para funcionar. Mas antes precisamos compreender como esta ferramenta funciona. A priori, ela funciona como um pincel que desenha (pinta) uma máscara na tela, e então aplica determinados efeitos apenas na região mascarada. Como tudo no Lightroom, tanto a máscara quanto o efeito aplicado pelo Adjustment Brush é dinâmico e não destrutivo, podendo ser alterado a qualquer momento.

O Adjustment Brush permite que você crie várias máscaras para aplicar diversos ajustes diferentes, ou então que aplique diversos ajustes diferentes na mesma máscara. Ele ainda permite que você crie pré-definições de ajustes para aplicar de uma só vez, como uma combinação de Brightness, Saturation, Clarity e Sharpness para clarear olhos, e então salvar esta combinação para usos posteriores (o Lightroom já acompanha uma pré-definição desta, criada para suavizar a pele). E você ainda poderá controlar todo o efeito desta combinação de modificações com um único deslizante.

Para falarmos um pouco mais da ferramenta Adjustment Brush, vamos começar com uma foto do meu lindo afilhado, que andou ralando o nariz na escolinha.

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Vamos começar o processo limpando a pequena ferida sobre o nariz dele, bem como a marca abaixo do olho esquerdo. Normalmente isto seria feito no Photoshop, com a ferramenta Healing, mas no Lightroom 2 podemos fazer correções simples, não destrutivas, diretamente no programa.

Vamos começar selecionando a ferramenta Spot Removal (N), que está próxima do Adjustment Brush, se parece com o símbolo que identifica o sexo masculino, e abre uma seção de opções similar à que vimos anteriormente, só que mais simples.

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As únicas opções que você tem nesta seção são:

Modo da Clonagem: Clone assemelha-se à Clone Tool do Photoshop, copiando plenamente de uma área para outra na imagem. Já Heal executa um processo similar à Healing Tool do Photoshop, suavizando a relação entre a área clonada e a já existente naquele ponto.

Size: Tamanho do ponto a ser clonado. Este tamanho também pode ser ajustado com as teclas de atalho [ e ] (colchetes). Não chamamos o cursor do Spot Removal de pincel porque ele não funciona desta forma. Diferente de um pincel, que você pode clicar e arrastar para pintar, a ferramenta Spot Removal funciona clonando um ponto exato sobre outro ponto, na forma do cursor. Você compreenderá melhor o processo abaixo.

Opacity: Define a opacidade do ponto clonado.

Todas estas opções são dinâmicas e podem ser alteradas depois da ferramenta ser aplicada na imagem. Você pode remover uma mancha da imagem, e então depois decidir se ela fica melhor com Heal ou Clone, ou então alterar o tamanho da área afetada, opacidade e etc.

Para começar, coloque o cursor (sem clicar) sobre a mancha que desejamos remover, e ajuste o tamanho do cursor utilizando as teclas de colchetes. Mantenha as outras opções em Heal e a Opacity em 100%.

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Quando o tamanho estiver definido (lembre-se de que isto tudo pode ser alterado posteriormente), clique sobre o ponto sobre o qual deseja clonar, e arraste o cursor para a área que deseja que seja clonada sobre o ponto. Aqui clicamos e subirmos o cursor para um ponto de pele de tonalidade e textura similares. O Lightroom atualizada a imagem constantemente, e isto auxilia no processo de escolher o ponto ideal.

Isto faz com que o Lightroom mostre dois círculos na imagem, o mais claro, com o + dentro, indica o ponto sobre o qual a clonagem aconteceu, enquanto o mais escuro, sem o + dentro, indica o ponto que foi utilizado como fonte para a clonagem, ou então o Lightroom mostra os dois círculos com uma seta apontando de que ponto para qual ponto ocorreu a clonagem. Para visualizar a imagem sem os indicadores, clique no ícone da ferramenta Spot Removal para de-seleciona-la, assim os indicadores desaparecem.

Veja a imagem com os indicadores:

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E sem os indicadores:

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Agora é só selecionar a ferramenta Spot Removal novamente (caso você a tenha de-selecionado para verificar a imagem sem os indicadores) e fazer o mesmo com a mancha abaixo do olho esquerdo. Ao se fazer isto o indicador da primeira clonagem se torna apenas um círculo cinza, indicando o ponto onde a clonagem aconteceu.

Assim que se diferencia os pontos de clonagem. O ponto selecionado, ativo, cujo opções estão na seção de opção é aquele que está mostrado em forma de dois círculos e seta (ou sinal de adição). Para selecionar outro ponto, basta clicar sobre o círculo cinza, assim ele se torna o ponto ativo (e os dois pontos de clonagem dele aparecem), e as opções surgem na seção de opções.

Você pode selecionar qualquer um dos pontos e alterar as opções enquanto observa, em tempo real, as modificações na imagem.

Alguns pontos, como linhas (como o arranhão na ponta do nariz), podem exigir várias aplicações de pequenos pontos, ao invés de uma única aplicação grande. Tudo vai depender de suas escolhas de situação para situação.

Uma vez que você tenha terminado de remover os pontos desejados, basta desativar a ferramenta Spot Removal. Lembre-se de que as alterações ficam registradas no Lightroom, e não na imagem. A qualquer momento você pode voltar na ferramenta e alterar os pontos de clonagem, as opções, e até mesmo desfazer tudo e recuperar a imagem original.

Agora que removemos alguns pontos problemáticos, vamos fazer os ajustes localizados. A começar por suavizar a pele da criança. Vamos selecionar a ferramenta Adjustment Brush, e como ainda não temos nenhuma máscara nem precisaremos clicar na opção New.

Vamos, inicialmente, compreender as opções desta seção (sim, a imagem abaixo é a mesma que está lá em cima, só a repeti aqui para facilitar a visualização durante esta parte do processo):

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As opções ao lado de Mask, New | Edit, são mais constatações do que opções. Se você não tem nenhuma máscara, o New estará selecionado automaticamente. A partir do momento que você começa uma máscara ele automaticamente muda para Edit pois você estará editando a máscara já existente. Para começar uma nova máscara clique em New novamente. Para editar uma máscara já existente, clique na âncora da máscara sobre a imagem. Âncora é o ponto onde você começou uma máscara, e é definida na tela por um círculo cinza quando não está selecionada, e um círculo com um ponto preto ao ser selecionada (e estar ativa).

Veja, respectivamente, uma âncora selecionada e não selecionada:

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Além de serem um ponto clicável para se selecionar uma máscara específica, as âncoras também possuem outras funções. Primeiro, quando o mouse está sobre uma âncora selecionada ele se converte em duas setas, indicando que se você clicar naquele ponto e arrastar para um dos lados, você alterará positiva ou negativamente a quantidade do efeito aplicado naquela âncora. Adicionalmente, quando se deixa o cursor do mouse sobre a âncora, automaticamente o Lightroom apresenta, destacado em vermelho, a área onde a máscara foi aplicada, o que é muito útil quando se quer verificar a aplicação de um efeito muito sutil.

A cor da área mascarada por ser alterada com o atalho Shift-O, variando entre vermelho, verde, branco e preto. Isto pode ser útil quando a cor da área aplicada é igual à cor da máscara.

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Logo abaixo temos o menu pop-up Effect, que por padrão vem selecionado em Exposure. Neste menu encontramos todas as alterações que podem ser executadas de forma localizada. Abaixo do primeiro divisor se encontram as pré-definições (o Lightroom oferece, inicialmente, apenas a pré-definição Soft Skin), e abaixo da segunda divisão a opção Save Current Settings as New Preset, que permite que você salve as configurações atuais como uma nova pré-definição.

O interruptor ao lado deste menu altera a forma de visualização do efeito a ser aplicado. Quando ele está para a esquerda você vê apenas o deslizante de quantidade do efeito selecionado (Amount), e as alterações envolvidas no efeito estão listadas abaixo com sinais de adição e subtração, que indicam a influência positiva ou negativa deste item no efeito geral. Isto não faz muita diferença quando se escolhe modificações únicas como Exposure, Sharpness e etc… mas faz toda a diferença quando se seleciona uma pré-definição.

Veja que ao selecionar Soft Skin no menu, os itens Clarity e Sharpness recebem modificadores negativos e positivos, respectivamente. Isto significa que a pré-definição Soft Skin irá alterar a Clarity e Sharpness da foto sob a máscara. Alterar o deslizante Amount desta opção irá reduzir a influência de ambos os itens na imagem.

Clique no interruptor agora, para ver a diferença. Os itens desaparecem, bem como o deslizante Amount. Ao invés disto, você visualiza todas as opções em forma de deslizantes (perceba o modificador negativo de –100 em Clarity, e positivo de 25 em Sharpness). Assim você pode alterar separadamente cada alteração que compõe a pré-definição, ao invés de utilizar o Amount para afetar o efeito como um todo. Clique novamente no interruptor para voltar ao modo normal.

Abaixo dos itens você tem a opção Color, que aplica uma cor sobre sua imagem. Caso você crie uma pré-definição e não deseja que ela altere as cores da imagem, simplesmente deixe a opção Color com saturação 0%.

Abaixo destas temos a sessão Brush que não é nada mais que a definição dos atributos do pincel com o qual você pintará a máscara de efeito.

Os atributos dos pincéis são:

SIZE: O tamanho do pincel (representado pelo círculo branco menor do cursor).

FEATHER: Suavidade do pincel (área além do tamanho dele que será afetada com intensidade progressivamente menor – representada pelo círculo cinza maior do cursor).

FLOW: A liberação de “tinta” do pincel. Quanto menor o Flow, mais vezes o pincel terá de passar sobre a mesma área para elevar a densidade da máscara. Em 100% o mínimo clique já aplicará a intensidade máxima da máscara.

AUTO MASK: Evita que o pincel pinte em área de cor muito diferente. Com o auto mask ativo, caso o centro do pincel esteja em uma área de determinada cor, e sua periferia sobre uma área de cor muito diferente, a área de cor diferente não será afetada. É ótimo para se pintar margens entre os objetos, sem afetar um deles.

DENSITY: Opacidade do pincel. A área pintada receberá uma máscara de opacidade igual ao Density. Quanto menor o Density, menor o efeito naquela área.

Você deve estar se perguntando a razão de eu ter ignorado aquele A | B | Erase lá em cima, né? Eu não ignorei não, é que é mais fácil compreender estas opções depois de entender a configuração dos pincéis.

A e B são duas opções diferentes de pincéis que você pode configurar. Selecione A e altere as opções dos pincéis, e as opções ficam registradas no pincel A. Agora mude para B e crie novas opções, e estas ficarão registradas no pincel B. Assim você pode alternar rapidamente entre os pincéis utilizando o atalho “/

Minha recomendação é criar um pincel suave como A e outro duro como B, e então alternar entre ambos com o atalho “/”. O tamanho você pode controlar com os colchetes “[“ e “]”, e para apagar um pedaço da máscara basta apertar “ALT” para ativar a borracha. Enquanto você pinta, pode pressionar a Barra de Espaço para converter o cursor em uma mãozinha, para clicar e arrastar a imagem.

Vamos ao trabalho, então, selecionando a opção Soft Skin (suavizar pele) no menu pop-up Effect. Deixe o Amount em 100% por enquanto, para aplicar o máximo de suavização (facilitando a visualização do efeito). Caso, depois de aplicado, acharmos que foi exagerado, podemos reduzir o efeito.

Com um pincel suave (Feather alto) comece a pintar a pele do retratado. Tome cuidado (aumente e reduza o tamanho do pincel conforme necessário) para não afetar áreas que precisem manter a nitidez, como sobrancelhas, boca, olhos e etc. Deixe o cursor sobre a âncora da máscara para visualizar as áreas afetadas.

Após aplicar a máscara como desejado, você pode reduzir o deslizante Amount do efeito caso ache o efeito forte demais (no meu caso, achei que o efeito afetou demais as altas-luzes da pele, então reduzi-o para 50%). E a qualquer momento você pode apertar no botão “Y|Y” abaixo da imagem para visualizar um “antes e depois” da imagem. Clique no botão com dois quadrados inscritos para retornar à visualização normal.

Clique na imagem abaixo para ver o antes e depois do efeito aplicado, ainda com o Amount em 100%.

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Satisfeito com a pele, clicamos no botão NEW para adicionarmos uma nova máscara. Isto faz com que a âncora da máscara Soft Skin se torne um circulo cinza, indicando que não é mais ela a máscara ativa.

Agora selecione Brightness no menu, e clique no interruptor para abrir todos os deslizantes, pois iremos criar uma nova combinação de efeitos, para clarear os olhos.

Aplique nos deslizantes a seguinte combinação.

Brightness (32); Saturation (-64); Clarity (-45). O resto deixe em 0. Agora basta pintar a nova máscara sobre o olho (perceba que uma nova âncora será criada) para clareá-lo. Clique no interruptor do menu para retornar ao deslizante básico Amount, assim você pode, depois de aplicar a máscara, reduzir a intensidade do efeito como um todo caso ache-o exagerado.

Se você tiver gostado do efeito, clique no menu Effect (onde agora deve estar escrito Custom) e selecione Save Current Setting as Preset, e dê um nome a esta nova pré-definição (Olhos Claros é um bom nome, não?). A pré-definição irá aparecer sempre, daqui para frente, neste menu.

Se você estiver tratando fotos femininas, uma boa opção é tornar os lábios mais vermelho. Faça isto criando uma nova máscara (clique em New), selecionando qualquer opção (que não seja pré-definição) no menu e clicando no interruptor para abrir os deslizantes. Aplique as seguintes configurações.

Saturation (14); Clarity (48); Sharpness (32). Então clique no quadrado Color e aplique H: 0º e S: 17% (basta clicar no número ao lado das letras, na parte de baixo do Color picker, e digitar o número desejado).

Agora basta pintar esta máscara sobre os lábios do retratado.

Com estas ferramentas você pode tratar diversas imagens sem nem mesmo levar ao Photoshop. Com os efeitos certos você pode simular a aplicação das ferramentas Dodge (Exposure positivo), Burn (Exposure negativo), fazer cut-outs (Saturation –100), ou até mesmo detalhes em sépia ou fundos coloridos (utilizando a Color).  São diversas opções criativas sem nem mesmo tirar a foto do Lightroom, e todas não destrutivas. Para fotógrafos (que não sejam manipuladores extremos de imagens, fazendo montagens e etc) o Photoshop se torna até dispensável.

Como uma última dica, você pode pressionar a tecla “H” a qualquer momento, enquanto está na ferramenta Adjustment Brush ou Spot Removal para esconder os indicadores e âncoras. Pressione novamente para retorná-los.

Abaixo, uma imagem da minha namorada (ela vai me odiar por isto, rssss), tratada sem a necessidade de recorrer ao Photoshop. Clique para ampliar a imagem.

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Grande abraço para todos. E não deixem de comentar.

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Santos Pixels Batman! O Lightroom acabou com a minha foto!!

15/09/2008

Sei que eu havia prometido alguma coisa envolvendo a comparação entre os espaços de cor AdobeRGB e o sRGB. Mas como o material que preparei não está acessível no momento, resolvi trabalhar em cima de outro assunto mitológico: o Lightroom muda as cores das imagens em RAW que abro nele.

Falei uma vez, em outro lugar (mas ainda tocarei no assunto aqui): não existe imagem sem tratamento. Digo isto, simplificando no momento, pois para o computador interpretar sua imagem ele precisa de uma espécie de “tradutor”, que “ensina” o programa a converter dados binários do arquivo em uma imagem visível para você. Isto deixa duas opções para você… a primeira é configurar você mesmo como seu programa irá interpretar estes dados, a segundo é se orgulhar de dizer “eu não uso Photoshop em minhas imagens” e se contentar com as escolhas que os japoneses que fabricaram sua câmera fizeram ao contruí-la.

Caso você pertença ao segundo grupo, e fotografe em JPEG pois “a imagem fica melhor”, este texto não é para você, e o Lightroom não é para você. Utilize um gerenciador de fotos como o Picasa, ou o próprio gerenciador que acompanha sua câmera e seja feliz.

Caso você pertença ao primeiro grupo, já deve ter percebido (e se assustado) com o fato de que toda imagem que você abre no Lightroom surge por alguns segundos com cores lindas, saturadas e contrastadas, para então se transformar em uma imagem chapada e sem vida. Também já deve ter percebido que o programa que acompanhou sua câmera não faz o mesmo, e abre suas imagens lindas e não aplica nenhuma efeito para estragá-las, então concluiu que o Lightroom é um lixo, e que a Adobe, com inveja de suas fotos, resolveu aplicar um filtro automático, não desligável, que estraga suas imagens. Veja a imagem abaixo (foto da minha sacada), durante uns 3 segundos o LR (Lightroom) mostrou a primeira imagem, e então ela se transformou na segunda.

Olha que linda minha fot...

Olha que linda minha fot...

...damn You Lightroom!!!

...damn You Lightroom!!!

Não quero decepcionar você, de verdade, mas a verdadeira foto que você tirou é a segunda. Isto mesmo… as cores da sua imagem, o contraste e tudo mais, está mais próximo do real na segunda foto do que na primeira. O LR não aplica nenhum filtro na imagem, nenhum ajuste automático, ele simplesmente lhe mostra (diferente do software da sua câmera, na maior parte das vezes) a imagem em RAW que o sensor da sua câmera capturou.

Na real é complicado falar em “verdadeira imagem RAW”. O seu sensor fornece dados, não uma imagem, e para interpretar estes dados é necessário um “manual de instruções” que chamamos de Perfil (Profile) e fornece ao software instruções sobre qual tom de verde deve ser aquele píxel descrito como “10010100110010”. A sua câmera possui diversos destes perfis (aplicados internamente pelo processador da câmera em imagens JPEG), que possuem nomes “comerciais” como Picture Styles (Canon) ou Optime Image (Nikon), que normalmente variam com títulos como Paisagem, Retrato, Neutral e daí por diante. Cada perfil deste interpreta os dados do sensor de forma diferente, retrato reforça os vermelhos (para dar vivacidade à pele), o paisagem satura verdes e azuis (grama e céu), e o neutro é neutro, né? Não. O neutro é simplesmente uma série de escolhas feitas pelos engenheiros daquilo que “ELES” consideravam neutro. O processo é o seguinte: seu sensor (CMOS ou CCD) captura a luz, converte em dados (1s e 0s) RAW, e o processador interno da câmera utiliza o profile indicado por você (não existe algo como “conversão sem profile”… o profile sempre é necessário) para criar um JPEG da imagem (seja para salvar o JPEG e ignorar o RAW, ou seja para salvar o RAW, mas utilizar o JPEG para que você visualize a imagem no LCD da câmera).

O LR também possui perfis como este. Chamam-se ACR 3.6 e ACR 4.4 (ACR = Adobe Camera Raw), que são perfis “genéricos” que reconhece sua câmera e interpreta RAWs dela da forma mais “neutra” o possível. A Adobe não foi muito feliz com estes perfis, pois eles costumam deixar os vermelhos muito alaranjados/amarelados. Então ela lançou um novo chamado Adobe Standard Beta (para o Lightroom 2.0) para corrigir este problema.

Entendi esta parte. Mas se a câmera não aplica este perfil no RAW, o que isto tem a ver com a imagem em RAW que abro no Lightroom? Você não leu direito o penúltimo parágrafo, leu? Vou explicar.

A câmera não tem como mostrar para você uma imagem em RAW no LCD da câmera, pois o RAW são apenas dados não interpretatos. Assim sendo, a câmera é obrigada a anexar um JPEG de baixa resolução no arquivo RAW que ela salva para você, de forma que possa apresentar em JPEG no LCD e você visualizar a foto que fez. Para esta conversão ela utiliza o perfil que você definiu na câmera, o mesmo que utilizaria se fosse salvar um JPEG da sua imagem ao invés do RAW. Em resumo, todo o RAW feito por sua câmera acompanha um JPEG de pequena proporção para ser visualizado no LCD.

Aqui está o “pulo do gato”: quando o Lightroom abre sua imagem, ele utiliza o perfil JPEG para mostrar sua imagem rapidamente (enquanto, internamente, o processador processa os dados RAW, segundo o profile da própria Adobe, para sua visualização). Aqui surge a questão da “transformação”. Por alguns segundos você visualiza a imagem JPEG, com todo o pós-processamento da câmera aplicado (incluindo o perfil), até que a Adobe converta o RAW com seu perfil “neutro” e aplica na sua imagem. Como a tendência do perfil da câmera é sempre saturar as cores (coletivamente ou individualmente), a impressão que temos é que a primeira imagem é sempre mais “bonita” do que a imagem final (o RAW mais neutro).

Então por que o programa da minha câmera não faz o mesmo? Pois o programa da sua câmera (no caso da Canon, o Canon’s Digital Photo Professional) possui, não por coincidência, os mesmos perfis que sua câmera possui. Quando você importa um RAW da sua câmera para o PC o programa reconhece o perfil que foi utilizado nela e aplica o mesmo perfil na conversão do RAW. Em resumo, o programa faz com o seu RAW o mesmo pós-processamento que faria “in-camera” na produção do JPEG. A diferença é que o programa permite que você altere o perfil escolhido na câmera (ou seja, você pode fotografar com o perfil Landscape na câmera, ao importar ele aplicará o Landscape no programa, mas você pode alterá-lo para Portrait, Neutral e etc, sem problemas).

Como exemplo fotografei a vista de minha sacada mais uma vez. Só que desta vez configurei a câmera para fotografar em JPEG, e fiz a primeira foto utilizando o Picture Style (possuo uma Canon) Landscape, e o segundo com o Neutral. Veja o resultado, e compare com as imagens lá de cima, do antes/depois do Lightroom:

JPEG Perfil Landscape

JPEG Perfil Landscape

JPEG Perfil Neutral

JPEG Perfil Neutral

Viu só? O perfil da Canon que tenta “neutralizar” as cores se assemelha muito com o resultado do perfil padrão do Lightroom, e o JPEG com o perfil Landscape é exatamente o mesmo apresentado no Lightroom durante alguns segundos (enquanto ele interpreta o seu RAW).

Poxa, mas não seria mais fácil a Adobe fazer do mesmo jeito que o software da câmera faz? Temos dois problemas aqui. O primeiro é, por que você fotografa em RAW? Não é para ter uma imagem o mais neutra o possível? Então por que você quer ter uma imagem que se assemelhe ao JPEG que a câmera faz (cheio de pós-processamento decido pelo engenheiro que a projetou)? Você pode responder: para ter a opção de escolher o perfil de cor depois de ter feito a foto, e assim ter mais liberdade. Boa resposta.

O problema é que para fazer isto a Adobe precisaria de acesso aos dados e instruções de todos os perfis de cada marca de câmera desenvolvida, para saber como ele interpreta o RAW durante a conversão, e este perfil é meio que “segredo corporativo” de cada uma destas empresas. Se as empresas simplesmente “abrissem” seus perfis, isto daria chance às concorrendes de explorarem estes perfir e analizarem os segredos das imagens umas das outras. Sem estes perfis abertos, a Adobe precisaria fazer “engenharia reversa” para identificar o comportamento dos perfis, e isto não é lá muito ético de se fazer.

Assim, a forma como este perfil é reconhecido, dentro do RAW, pelo software é de conhecimento apenas do fabricante da câmera, e a Adobe não tem como fazer o LR reconhecer o perfil. Por isto opta por um perfil básico e neutro, até porque esta neutralidade no ponto de partida é uma das características pelo qual o RAW é útil.

Então sou obrigado a me contentar com perfil da Adobe se quiser usar o LR? Não, pois com o lançamento do Lightroom 2.0 a Adobe resolveu facilitar a vida de quem gosta dos perfis da sua câmera. Junto do novo perfil, o Adobe Standard Beta, ela lançou um pacote de perfis compatíveis com sua câmera (veja aqui). Basta baixar o arquivo e instalar. Quando você abrir um RAW o Lightroom irá identificar sua câmera e disponibilizar para você os perfis que você tem na mesma (no caso da Canon: Standard, Landscape, Portrait, Neutral e Faithful). Ele não consegue, ainda, reconhecer qual foi utilizado na fotografia (e irá aplicar o padrão do LR que é o ACR 4.4, a não ser que você mude), mas você terá a opção de alterar o perfil para se adequar ao seu gosto.

Se você utiliza sempre o mesmo perfil da câmera, pode simplesmente colocá-lo como perfil padrão do Lightroom.

Abaixo os perfis do Lightroom 2.0 que simulam os perfis da Canon EOS Rebel XTi/400D:

Adobe ACR 4.4

Adobe ACR 4.4

Adobe Standard Beta

Adobe Standard Beta

Canon Standard

Canon Standard

Canon Faithful

Canon Faithful

Canon Landscape

Canon Landscape

Canon Neutral

Canon Neutral

Canon Portrait

Canon Portrait

Devo lembrar que os “perfis” encontrados na câmera (Picture Style ou seja lá o nome) normalmente dizem respeito à mais parâmetros do que simplesmente a cor e a curva tonal. Normalmente dizem respeito também à configuração de nitidez, contraste e etc. No caso dos perfis do Lightroom, eles tentam simular apenas o comportamento de cor e curva tonal dos perfis das câmeras, não alterando nenhum outro parâmetro da imagem.

A conclusão disto é que o Lightroom não aplica alteração nenhuma em sua foto, diferente dos softwares que acompanham a câmera. Ele simplesmente analiza seu RAW e aplica o perfil genérico dele que tenta ser o mais “neutro” o possível no que se refere às cores. A transformação que você vê diz respeito ao fato do Lightroom utilizar o JPEG anexado ao RAW por alguns segundos para lhe apresentar um preview enquanto faz o preview definitivo da imagem.

Até a próxima.