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Alguns mitos sobre Fotografia Digital (2)

13/10/2008

Quantas vezes você já escutou, mesmo de pessoas mais habituadas à fotografia, sobre a técnica de "travar o foco e recompor"? Não se trata de uma mística técnica oriental, mas sim de pressionar o botão disparador da câmera até a metade, desta forma travando o foco da câmera, e então recompor a imagem e finalmente fazer a captura.

A técnica é favorecida, principalmente, em câmera com menor número de pontos de foco, pois lhe forçam a focar sempre em pontos específicos da cena (e então recompor a imagem para enquadrar o que você deseja). Mas se houve falar dela em todos os tipos de câmera.

A questão é: a técnica funciona?

A resposta é: em termos. A possibilidade desta técnica funcionar é diretamente proporcional à sua profundidade de foco e inversamente proporcional ao quanto você tem de mover a câmera para recompor a cena. Por isto a técnica pode ser executada a contento quando se fotografa com câmeras prossumers e compactas (que possuem, normalmente, profundidade de foco maior), mas será um desastre se você tentá-la com uma objetiva 50mm em abertura f/1.4 ou f/1.8.

Alguns podem tentar argumentar: mas se eu recompor sem sair do lugar, o objeto focado ficará à mesma distância da câmera. Aí é que mora o perigo, pois parte do pressuposto de que a área de foco é esférica com centro na câmera, e acredita-se que ao mover a câmera de forma circular (sem se mover do lugar) estará garantindo que o objeto focado continua à mesma distância da câmera e, consequentemente, estará focado.

Acontece que, por mais que sua câmera diga que o ponto de foco esteja a 2m da câmera (do plano focal da câmera), isto não significa que tudo que está a 2m da câmera estará focado. Pelo contrário, apenas o que estiver exatamente no eixo óptico central da câmera (um eixo imaginário que parte perpendicular ao plano do sensor da câmera à partir do centro da lente) é que estará focado a 2m de distância. Tudo que estiver fora deste eixo estará focado em distâncias proporcionalmente mais longas. Isto se deve ao fato de que o eixo focal da câmera é um plano, e não uma esfera.

Veja a ilustração abaixo (a área de DoF é apenas ilustrativa. O DoF se estende, normalmente, um terço antes do Plano Focal e dois terços após o Plano Focal).

Plano Focal

Perceba pelas medidas, que a distância de foco aumenta à medida que você se afasta do eixo óptico da câmera. Agora veja, abaixo, o que acontece quando você "gira" a câmera para recompor a cena (no exemplo abaixo, seria um deslocamento lateral para, por exemplo, colocar o "X" no terço esquerdo do enquadramento).

Plano Focal

Perceba que no momento em que a câmera é deslocada (bem como o eixo óptico), o plano focal move-se o suficiente para fazer com que o nosso Ponto de Foco (o centro do X) fique foca da área de DoF (Profundidade de Foco), fazendo com que fique fora de foco. Em resumo, o mínimo deslocamento já é suficiente para que o ponto de foco desejado já saia fora do ponto de foco mais preciso da câmera.

Um DoF mais profundo pode ajudar a minimizar este efeito, fazendo com o ponto de foco intencionado ainda fique dentro da área de foco aceitável. Mas, de qualquer modo, ainda estará menos nítido do que o ponto de foco preciso.

Como evitar o problema?

A resposta mais simples seria: não utilize a técnica, selecione manualmente e utilize um dos pontos de auto-foco de sua câmera para acertar o foco no ponto de interesse e fotografe. Mas a resposta não seria convincente, pois quanto menos pontos de auto-foco sua câmera tiver, menores serão suas opções de enquadramento e composição.

Então existem diversos fatores que podem minimizar o estrago feito pelo deslocamento no foco da sua imagem.

– Utilize aberturas menores, pois quanto menor a abertura (maior o número f ) maior será a profundidade de foco. Isto faz com que sejam maiores as chances do seu ponto de foco intencionado fique dentro da área do DoF. Utilizar abertura grandes, como f/1.8, faz com que qualquer movimento para recompor a cena seja o suficiente para jogar o foco dos olhos para a orelha.

– Utilize objetivas grande-angulares. Quanto menor a distância focal da objetiva, maior o DoF dela, e menor a chance do deslocamento tirar o ponto desejado do foco.

– Afaste-se do assunto fotografado. Quanto maior a distância entre a câmera e o assunto a ser fotografado, maior o DoF.

– Movimente a câmera o mínimo possível. Não use sempre o ponto AF central da sua câmera. Ao contrário, selecione manualmente o ponto AF mais próximo da área de foco intencionada no enquadramento desejado. Fazendo isto você terá de mover a câmera o mínimo possível para recompor a cena, o que minimiza a possibilidade de tirar o ponto desejada do foco.

– Escolha uma câmera com bom número de pontos AF. Quantos mais pontos, maiores são suas opções de composição sem a necessidade de recompor a cena após a obtenção do foco.

Este artigo não tem a intenção de fazer com que você deixe de utilizar a técnica. Mas sim de alertá-lo para as deficiências e limitações dela, de forma que você possa fazer de forma mais consciente as suas escolhas.

Grande abraço.

8 comentários

  1. Agora entendi por que alguns fotógrafos apertam o botão da camera, apontam ela pra outro lugar e tiram foto😀

    Hein, já viu esse podcast sobre fotografia?
    mulherdesign.com.br/click-1-o-que-e-fotografia-em-raw

    Abraços e continue com artigos excelentes assim😉


  2. Nossa! Muito bom e muito explicativo! Otimo artigo parabens!!

    []s
    Marcio


  3. Mto bom, cara.


  4. Foi exatamente o tema de uma conversa com dois amigos no final de semana, concordo plenamente que a recomposição em DSLR é bem mais complicada e “instavél” do que quando feito em uma compacta. Não é à tôa que atualmente as câmeras têm 11, 20 ou até 50 pontos de foco! Gostei demais deste BLOG!.. Parabéns.


  5. Excepcional esse artigo! Sempre usei a técnica de travar o foco. Recentemente migrei de uma compacta para a XTi e sentia uma dificuldade terrível para acertar o foco com uma cinquentinha em algumas situações.

    Depois de ler seu artigo vi que era óbvio o que estava acontecendo comigo. É a´te um conceito simples, mas nunca tinha pensado nissso…

    Muito obrigado! Seu blog vai para a minha lista de feeds rss.

    Ps: conheci seu blog lá no digiforum…


  6. Cara, parabéns pela excelente explicação para este problema. Comprei uma canon 50mm f1.4 e estava simplesmente decepcionado com ela. Nas fotos com grande abertura, eu raramente conseguia ofoco desejado. Amanhã cedo vou por em prática as suas recomendações. Valeu!!!


  7. Esta é a segunda vez que leio este artigo. Foi muito bom revê-lo. Agora, depois de alguns meses da primeira leitura e de constatar o seu conteúdo na prática, considero apreendida tua didática aula.
    Parabens!


  8. Rever a Física e a Matemática fazem toda diferença! Ótimo artigo!



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