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Santos Pixels Batman! O Lightroom acabou com a minha foto!!

15/09/2008

Sei que eu havia prometido alguma coisa envolvendo a comparação entre os espaços de cor AdobeRGB e o sRGB. Mas como o material que preparei não está acessível no momento, resolvi trabalhar em cima de outro assunto mitológico: o Lightroom muda as cores das imagens em RAW que abro nele.

Falei uma vez, em outro lugar (mas ainda tocarei no assunto aqui): não existe imagem sem tratamento. Digo isto, simplificando no momento, pois para o computador interpretar sua imagem ele precisa de uma espécie de “tradutor”, que “ensina” o programa a converter dados binários do arquivo em uma imagem visível para você. Isto deixa duas opções para você… a primeira é configurar você mesmo como seu programa irá interpretar estes dados, a segundo é se orgulhar de dizer “eu não uso Photoshop em minhas imagens” e se contentar com as escolhas que os japoneses que fabricaram sua câmera fizeram ao contruí-la.

Caso você pertença ao segundo grupo, e fotografe em JPEG pois “a imagem fica melhor”, este texto não é para você, e o Lightroom não é para você. Utilize um gerenciador de fotos como o Picasa, ou o próprio gerenciador que acompanha sua câmera e seja feliz.

Caso você pertença ao primeiro grupo, já deve ter percebido (e se assustado) com o fato de que toda imagem que você abre no Lightroom surge por alguns segundos com cores lindas, saturadas e contrastadas, para então se transformar em uma imagem chapada e sem vida. Também já deve ter percebido que o programa que acompanhou sua câmera não faz o mesmo, e abre suas imagens lindas e não aplica nenhuma efeito para estragá-las, então concluiu que o Lightroom é um lixo, e que a Adobe, com inveja de suas fotos, resolveu aplicar um filtro automático, não desligável, que estraga suas imagens. Veja a imagem abaixo (foto da minha sacada), durante uns 3 segundos o LR (Lightroom) mostrou a primeira imagem, e então ela se transformou na segunda.

Olha que linda minha fot...

Olha que linda minha fot...

...damn You Lightroom!!!

...damn You Lightroom!!!

Não quero decepcionar você, de verdade, mas a verdadeira foto que você tirou é a segunda. Isto mesmo… as cores da sua imagem, o contraste e tudo mais, está mais próximo do real na segunda foto do que na primeira. O LR não aplica nenhum filtro na imagem, nenhum ajuste automático, ele simplesmente lhe mostra (diferente do software da sua câmera, na maior parte das vezes) a imagem em RAW que o sensor da sua câmera capturou.

Na real é complicado falar em “verdadeira imagem RAW”. O seu sensor fornece dados, não uma imagem, e para interpretar estes dados é necessário um “manual de instruções” que chamamos de Perfil (Profile) e fornece ao software instruções sobre qual tom de verde deve ser aquele píxel descrito como “10010100110010”. A sua câmera possui diversos destes perfis (aplicados internamente pelo processador da câmera em imagens JPEG), que possuem nomes “comerciais” como Picture Styles (Canon) ou Optime Image (Nikon), que normalmente variam com títulos como Paisagem, Retrato, Neutral e daí por diante. Cada perfil deste interpreta os dados do sensor de forma diferente, retrato reforça os vermelhos (para dar vivacidade à pele), o paisagem satura verdes e azuis (grama e céu), e o neutro é neutro, né? Não. O neutro é simplesmente uma série de escolhas feitas pelos engenheiros daquilo que “ELES” consideravam neutro. O processo é o seguinte: seu sensor (CMOS ou CCD) captura a luz, converte em dados (1s e 0s) RAW, e o processador interno da câmera utiliza o profile indicado por você (não existe algo como “conversão sem profile”… o profile sempre é necessário) para criar um JPEG da imagem (seja para salvar o JPEG e ignorar o RAW, ou seja para salvar o RAW, mas utilizar o JPEG para que você visualize a imagem no LCD da câmera).

O LR também possui perfis como este. Chamam-se ACR 3.6 e ACR 4.4 (ACR = Adobe Camera Raw), que são perfis “genéricos” que reconhece sua câmera e interpreta RAWs dela da forma mais “neutra” o possível. A Adobe não foi muito feliz com estes perfis, pois eles costumam deixar os vermelhos muito alaranjados/amarelados. Então ela lançou um novo chamado Adobe Standard Beta (para o Lightroom 2.0) para corrigir este problema.

Entendi esta parte. Mas se a câmera não aplica este perfil no RAW, o que isto tem a ver com a imagem em RAW que abro no Lightroom? Você não leu direito o penúltimo parágrafo, leu? Vou explicar.

A câmera não tem como mostrar para você uma imagem em RAW no LCD da câmera, pois o RAW são apenas dados não interpretatos. Assim sendo, a câmera é obrigada a anexar um JPEG de baixa resolução no arquivo RAW que ela salva para você, de forma que possa apresentar em JPEG no LCD e você visualizar a foto que fez. Para esta conversão ela utiliza o perfil que você definiu na câmera, o mesmo que utilizaria se fosse salvar um JPEG da sua imagem ao invés do RAW. Em resumo, todo o RAW feito por sua câmera acompanha um JPEG de pequena proporção para ser visualizado no LCD.

Aqui está o “pulo do gato”: quando o Lightroom abre sua imagem, ele utiliza o perfil JPEG para mostrar sua imagem rapidamente (enquanto, internamente, o processador processa os dados RAW, segundo o profile da própria Adobe, para sua visualização). Aqui surge a questão da “transformação”. Por alguns segundos você visualiza a imagem JPEG, com todo o pós-processamento da câmera aplicado (incluindo o perfil), até que a Adobe converta o RAW com seu perfil “neutro” e aplica na sua imagem. Como a tendência do perfil da câmera é sempre saturar as cores (coletivamente ou individualmente), a impressão que temos é que a primeira imagem é sempre mais “bonita” do que a imagem final (o RAW mais neutro).

Então por que o programa da minha câmera não faz o mesmo? Pois o programa da sua câmera (no caso da Canon, o Canon’s Digital Photo Professional) possui, não por coincidência, os mesmos perfis que sua câmera possui. Quando você importa um RAW da sua câmera para o PC o programa reconhece o perfil que foi utilizado nela e aplica o mesmo perfil na conversão do RAW. Em resumo, o programa faz com o seu RAW o mesmo pós-processamento que faria “in-camera” na produção do JPEG. A diferença é que o programa permite que você altere o perfil escolhido na câmera (ou seja, você pode fotografar com o perfil Landscape na câmera, ao importar ele aplicará o Landscape no programa, mas você pode alterá-lo para Portrait, Neutral e etc, sem problemas).

Como exemplo fotografei a vista de minha sacada mais uma vez. Só que desta vez configurei a câmera para fotografar em JPEG, e fiz a primeira foto utilizando o Picture Style (possuo uma Canon) Landscape, e o segundo com o Neutral. Veja o resultado, e compare com as imagens lá de cima, do antes/depois do Lightroom:

JPEG Perfil Landscape

JPEG Perfil Landscape

JPEG Perfil Neutral

JPEG Perfil Neutral

Viu só? O perfil da Canon que tenta “neutralizar” as cores se assemelha muito com o resultado do perfil padrão do Lightroom, e o JPEG com o perfil Landscape é exatamente o mesmo apresentado no Lightroom durante alguns segundos (enquanto ele interpreta o seu RAW).

Poxa, mas não seria mais fácil a Adobe fazer do mesmo jeito que o software da câmera faz? Temos dois problemas aqui. O primeiro é, por que você fotografa em RAW? Não é para ter uma imagem o mais neutra o possível? Então por que você quer ter uma imagem que se assemelhe ao JPEG que a câmera faz (cheio de pós-processamento decido pelo engenheiro que a projetou)? Você pode responder: para ter a opção de escolher o perfil de cor depois de ter feito a foto, e assim ter mais liberdade. Boa resposta.

O problema é que para fazer isto a Adobe precisaria de acesso aos dados e instruções de todos os perfis de cada marca de câmera desenvolvida, para saber como ele interpreta o RAW durante a conversão, e este perfil é meio que “segredo corporativo” de cada uma destas empresas. Se as empresas simplesmente “abrissem” seus perfis, isto daria chance às concorrendes de explorarem estes perfir e analizarem os segredos das imagens umas das outras. Sem estes perfis abertos, a Adobe precisaria fazer “engenharia reversa” para identificar o comportamento dos perfis, e isto não é lá muito ético de se fazer.

Assim, a forma como este perfil é reconhecido, dentro do RAW, pelo software é de conhecimento apenas do fabricante da câmera, e a Adobe não tem como fazer o LR reconhecer o perfil. Por isto opta por um perfil básico e neutro, até porque esta neutralidade no ponto de partida é uma das características pelo qual o RAW é útil.

Então sou obrigado a me contentar com perfil da Adobe se quiser usar o LR? Não, pois com o lançamento do Lightroom 2.0 a Adobe resolveu facilitar a vida de quem gosta dos perfis da sua câmera. Junto do novo perfil, o Adobe Standard Beta, ela lançou um pacote de perfis compatíveis com sua câmera (veja aqui). Basta baixar o arquivo e instalar. Quando você abrir um RAW o Lightroom irá identificar sua câmera e disponibilizar para você os perfis que você tem na mesma (no caso da Canon: Standard, Landscape, Portrait, Neutral e Faithful). Ele não consegue, ainda, reconhecer qual foi utilizado na fotografia (e irá aplicar o padrão do LR que é o ACR 4.4, a não ser que você mude), mas você terá a opção de alterar o perfil para se adequar ao seu gosto.

Se você utiliza sempre o mesmo perfil da câmera, pode simplesmente colocá-lo como perfil padrão do Lightroom.

Abaixo os perfis do Lightroom 2.0 que simulam os perfis da Canon EOS Rebel XTi/400D:

Adobe ACR 4.4

Adobe ACR 4.4

Adobe Standard Beta

Adobe Standard Beta

Canon Standard

Canon Standard

Canon Faithful

Canon Faithful

Canon Landscape

Canon Landscape

Canon Neutral

Canon Neutral

Canon Portrait

Canon Portrait

Devo lembrar que os “perfis” encontrados na câmera (Picture Style ou seja lá o nome) normalmente dizem respeito à mais parâmetros do que simplesmente a cor e a curva tonal. Normalmente dizem respeito também à configuração de nitidez, contraste e etc. No caso dos perfis do Lightroom, eles tentam simular apenas o comportamento de cor e curva tonal dos perfis das câmeras, não alterando nenhum outro parâmetro da imagem.

A conclusão disto é que o Lightroom não aplica alteração nenhuma em sua foto, diferente dos softwares que acompanham a câmera. Ele simplesmente analiza seu RAW e aplica o perfil genérico dele que tenta ser o mais “neutro” o possível no que se refere às cores. A transformação que você vê diz respeito ao fato do Lightroom utilizar o JPEG anexado ao RAW por alguns segundos para lhe apresentar um preview enquanto faz o preview definitivo da imagem.

Até a próxima.

8 comentários

  1. […] Para ver o Artigo completo clique aqui (No Ratings Yet)  Loading … […]


  2. Muito bom o artigo!
    Realmente não sabia disso!
    Abs,


  3. Parabéns

    Enfim um artigo que faz sentido em relação a diferença de cor do lighrtroom, pois já tentei de tudo e ainda noto uma pequena diferença (alaranjado) na cor das minhas fotos em relação aos outros programas (utilizo o ACD See Pro 8) o qual mantém a mesma cor do programa da Canon (Minha máquina é Canon S5 IS, que somente possui a opção de JPEG, caso você tenha mais alguma sugestão em relação a cor do Lightroom, por favor envie p/ meu email.

    Obrigado e um abraço

    Amauri


  4. arrebentou no aritgo, ronin! parabéns!


  5. […] A última sessão CAMERA CALIBRATION, é bastante útil para se utilizar com os novos perfis de imagem do Lightroom, principalmente o novo perfil da Adobe, o Adobe Standard Beta, que reproduz melhor os vermelhos e amarelos do que o perfil que acompanha o Lightroom (ACR 4.4). Para saber como baixar, instalar e utilizar estes novos perfis, verifique o tutorial Santos Pixels Batman. O Lightroom acabou com minha foto. […]


  6. […] Autor: Raphael Bonelli Pagina: http://www.dzensolucoes.com.br Artigo:Santos Pixels Batman! O Lightroom acabou com a minha foto!! […]


  7. […] A última sessão CAMERA CALIBRATION, é bastante útil para se utilizar com os novos perfis de imagem do Lightroom, principalmente o novo perfil da Adobe, o Adobe Standard Beta, que reproduz melhor os vermelhos e amarelos do que o perfil que acompanha o Lightroom (ACR 4.4). Para saber como baixar, instalar e utilizar estes novos perfis, verifique o tutorial Santos Pixels Batman. O Lightroom acabou com minha foto. […]


  8. isso é verdade, abro a foto no LR passa alguns segundo fica aquela coisa sem graça, que não foi a foto que tirei. que coisa tava me matando tentando descobrir o que tava acontecendo, injustiça isso



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