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Universo Ficcional e Coerência

27/08/2008

Sim, eu vejo novelas. Não que eu pare tudo para assistir… somente a novela das 20hs e nunca nos sábados (quando normalmente estou fazendo alguma outra coisa), mas durante a semana é o horário em que chego do serviço, normalmente cansado, e me dou ao direito de sentar na frente da TV e assistir algo que não me faça pensar muito.

Sempre escrevi aventuras para jogos de RPG, e isto lhe dá um gostinho de ser um autor de alguma coisa, inventar um mundo, personagens e etc. Como um “autor” de histórias de RPG, existem algumas regrinhas que gosto de utilizar:

– Coincidência é o último recurso possível para o plot (enredo) caminhar. Você só utiliza na falta de qualquer opção, e com parcimônia total. Quanto maior a série de coincidências, mais improvável e inverossímil fica a situação.

– Coerência com o Universo Ficcional. Não tenho nada contra exageros ou “viagens”. Adoro cenários onde as pessoas voem, tenham superpoderes e coisas do tipo. Mas qualquer que seja o universo que você crie para suas história, você precisa se manter fiel a ele. Veja o He-Man, por exemplo… existe algo muito errado na história quando ele consegue erguer toda uma montanha, para alguns episódios mais tarde fazer um esforço hercúleo para erguer uma pedra. A partir do momento em que o personagem pode fazer X, ele sempre poderá fazer até que alguma situação inverta isto. Enquanto o universo responder uma ação A com uma reação B, sempre será assim até que exista alguma justificativa para a mudança.

Voltando à novela das 20hs, é engraçado como o autor rompe a barreira destas duas regras com uma constância fenomenal. As coincidências são claras: Flora sempre chega ao lugar certo na hora certa. Quais são as chances de você receber uma ligação avisando que alguém receberá, pelo correio, uma carta específica, e chegar à casa desta pessoa no momento exato em que ela receba a carta e deixa-a disponível em cima de uma mesa. A morte da repórter (personagem da Juliana Paes – morte causada muito mais pela necessidade dela de ir para outra novela do que da trama) foi uma seqüência fenomenal de coincidências: ela liga para Zé Bob e este está no tribunal e não atende, depois ele sai do tribunal e não retorna três ligações insistentemente seguidas de sua melhor amiga, vai ao teatro onde desliga o celular, chega em casa e re-liga, mas não retorna as ligações, Flora chega em seguida (apesar de não o seguir, estava no tribunal todo este tempo), Zé Bob entra no banho no momento exato em que a repórter liga para ele novamente, Flora intercepta a ligação. Fora o sem número de coincidências, em nenhum momento a repórter, inteligente e vivida, pensou em ligar para a polícia? Emergência?

Então entramos na questão do Universo Ficcional. A maioria das novelas da Globo utiliza como Universo Ficcional a realidade, pura e simples. Pode parecer mais prático, pois você não precisa inventar muita coisa, mas complica a partir do momento que tira das mãos do autor as regras do universo onde a trama acontece. Quando um cara recebe três ligações insistentes de uma amiga que considera uma irmã e não retorna, você tem um problema. Quando uma repórter inteligente não liga para polícia quando tem chance e está sendo perseguida por bandidos, você tem outro. A Flora, por exemplo: ela não só virou a vilã da novela, como também não aparece mais nenhuma vez em cena sem que repita frases de ódio contra todos a todo momento. Nos momentos inoportunos e estranhos repete que odeio Lara, que a Irene é uma chata e etc.

Dois momentos “mágicos” nesta equação da novela “A Favorita” foram o assassinato do Dr. Salvatore e o atropelamento da repórter. O plano em si é mais furado que um queijo suíço. Vamos a alguns dos furos:

– Donatela não precisava fugir. Um exame de corpo de delito confirmaria a pancada e o desmaio, e um exame por pólvora nas mãos dela provariam que ela nunca disparou aquela arma. Claro, ela surtou e não pensou nisto, mas o Zé Bob é repórter criminal, deveria conhecer estes procedimentos.

– A polícia não fechou nem investigou a cena do crime. Pombas, era uma garagem velha, cheia de poeira, quantas pegadas Flora e Dodi devem ter deixado no local do crime?

– A justiça levará anos para julgar os Nardoni, mas abriu uma exceção para julgar Donatela rapidamente, mesmo sem provas consistentes do crime.

Já no caso do atropelamento de Juliana Paes.

– Centenas de pessoas, inclusive o cara que brigava com o capanga de Dodi no momento da fuga, viram a repórter sair de um carro chorando, ser perseguida por dois capangas, e então ser atropelada. Dodi não tinha como fugir no momento do incidente, pois estava no meio do congestionamento, então é óbvio que as pessoas iriam esperar que ele fosse socorrer sua, até então, passageira, ou estranhariam o fato de ele ficar indiferente ao fato. A polícia, chegando mais tarde no local no local do incidente, certamente interrogaria as pessoas.

Esta quantidade de furos é culpa do autor? Não, mas sim culpa da forma como as novelas são estruturadas e levadas no cabresto firme pelos índices de IBOPE e pesquisas de opinião. Um bom plot é criado como uma pintura: você começa pela base e preenche as formas em pinceladas largas, até ter uma idéia do todo, e só então pinta os detalhes e dá o devido realce à sua obra. Nas novelas o plot é criado de forma linear… se tem o começo, e se escreve o meio sem se ter idéia do fim. Se no meio do caminho uma pesquisa de opinião diz que Lara tem de ficar com Halley, que a Flora tem de ser assassina, ou que o enredo precisa ser totalmente modificado, que se faça. Mesmo que isto custe a credibilidade ou coerência da novela, mesmo que sejam necessário retcoms (termo utilizado em seriados quando, em virtude de um novo plot, o autor ignora ou altera eventos passados) diversos e mudanças bruscas de personalidade nos personagens.

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